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Bom Proveito

Bom Proveito

Almodóvar deu-me este olhar a mim!

16
Set19

"Dor e Glória" (2019) de Almodóvar deu-me uma realidade que não esperava. O que aconteceu a Almodóvar? Abriu-me horizontes, agora sei melhor porque gosto mais de cinema. E porque gosto da sua mestria. Não será novidade para os entendidos nestas coisas que o seu trabalho se concentra nas relações, nos sentimentos, e nos diálogos, com uma moldura que enche a tela e pára no rectângulo que oferece a sala escura, a contrastar com as cores e coisas vivas que vão passando ao nosso olhar. Coisas curiosas. Imprevisíveis. Cada imagem é um quadro a contemplar. Neste filme a câmara parece-me propositadamente mais lenta, para dar tempo.

Não vejo os filmes por causas das mensagens. Imagens sim, diálogos sim. Do cinema bebo a vida, tal como é, e atrai-me, tal como a vida. Nem me interessa se o filme é autobiográfico. O filme tem vida própria. Almodóvar é recorrente nos temas. Mas neste filme o realizador levanta muitos véus.

Banderas, irrepreensível, tal como Penélope Cruz (no filme sua mãe)  fazendo ius ao nome que tem. Comparo a cena do filme Philadelphia (onde Banderas é o companheiro), na qual  Tom Hanks nos dá um homem sob os efeitos da droga pesada, numa sala cheia de cores e barulho, com as cenas deste filme de Almodóvar em que o mesmo em repetidos transes nos é dado em silêncio, e tudo no olhar, quase de olhos fechados, de Banderas. Um olhar que diz tudo.

É então que vamos conhecendo o passado deste realizador, personagem principal do filme, percorrendo as cenas da sua vida desde menino. Penélope, sempre a dar-se com trabalho e inteligência. Autêntica e de um inteireza tão bela quanto ela é bela. E que não se pense que se anula. Basta ver a forma como cose as meias no ovo de madeira, ovo esse que oferece ao filho, numa cena mais para o fim, em que já está velhinha e sabemos que era devota do nosso Santo António.

A sua Dor é a de uma mulher que a ama a vida. A de uma mulher poderosa. Tanto, tanto, que só pode ter a Glória como avesso. Sempre puxando pelas qualidades do menino, que os "curas" queriam educar. Mas o menino grita "não quero ser cura". Aproveito aqui para sublinhar que se noutros filmes noto uma certa subversão em relação a este e a outros temas, neste filme há zero de subversão. Nós já sabemos o que em tempo foram os seminários. E deveríamos saber que uma instituição se deveria medir pelo Bom, e não pelos deuses menores.

E vamos conhecendo que este realizador, um Banderas mais que convincente, terno, e totalmente dentro da representação (que esta já nem o é), é um homem que vive há mais de 30 anos ferido pelas dores insuportáveis de abraços rotos, mas que o Bom Deus irá tomar a peito porque sim e porque o Desejo é grande e mendicante...

Décadas de droga, afastamento e construção de um mundo, a sua casa parece um museu. Mas Banderas não morreu. A Arte irá salvar?

E Almodovar não nos mostra a casa toda. O que ele quer mostrar é o tal invisível aos olhos: o saber mostrar o invisível não é para todos. Não é por acaso que o menino diz, sob o olhar sério da jovem mãe, quando lhe perguntam o que ele quer fazer na vida: "quero aprender", para "ensinar".

 

 

 

 

Tarantino põe-me no sério

09
Set19

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"Once Upon a Time... in Hollywood" (2019), de Quentin Tarantino, sou suspeita: genial! Mostra a realidade nua e crua, ou seja, vestida e bem cozinhada. Nada fica ao acaso, nem a música que é escolhida a dedo, e não está ali para encher, como diria Oliveira.

Entra-me pelos olhos, fico dentro do écrã, melhor, entro em mim...O filme todo, 3h, num segundo que é eternidade. O olho do americano  não tem mensagem (diria também Oliveira, que a arte é do ontológico, e não do moral) nem porquês, nem intervalos. É como na vida, que não pára, não tem cortes (fez-me lembrar a câmara do filme a Arca Russa). O corte é a morte que mesmo assim, ainda Oliveira em Cannes, "est une porte".

Passado, presente e futuro, tudo simultâneo, com portas, horizontes de horizontes, fição e realidade, tudo encaixado.

Pura estética, a realidade entra toda em cada take que vive da beleza. O guião é a realidade.

As distinções são formalismos. Sonho e realidade são servidos na mesma travessa. O prato está cheio de tudo e transborda. Gostaste? É um filme cómico, não é? Não brinquem.

Tarantino põe-me é no sério de nada pôr de lado e de levar tudo em conta.

Seria preciso tanto ketchup? Sim.

E falta o meu elogio da imaginação, da construção encontrada naquela narrativa. O Polanski e a Sharon: um ovo de colombo.

E De Caprio num potencial que é só dele, na cena do filme dentro do filme com  a Marbella, a vivaz menina de oito anos, que com ele também se dá no seu melhor, e que gosta que a tratem por "actor". Ao ver essa cena pensei : esta é uma das melhores cenas da sétima arte. Acto contínuo oiço as mesmas (mesmo) palavras da boca da menina a Leonardo! Um pormenor: esta cena tem um imprevisto, Di Caprio sai fora do guião, a Marbella é atirada ao chão. Vê-se que teve medo. Mas confiou, levantou-se e alegrou-se com a excelência.

Tarantino não é o justiceiro, o que muda a história a seu bel prazer. Ele vê é tudo: o grande, o pequeno, as cores e todos os cheiros, a realidade a encher o coração. A sua Câmara é afinal simples, porque verdade. Ele chama as coisas pelos nomes. Filma pelos nomes. Ao ponto de entre mim e a tela não haver distância.

Por isso digo que este artista me põe no sério. Diante de mim.

Exagero o meu? Eu falo por mim, que não "percebo" de cinema. Tarantino o que é? Um homem cheio de graça! Na sua previsibilidade, a imprevisibilidade em ação. Muito trabalho, muita contemplação.

 

Exortai-vos cada dia uns aos outros,
até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13)

 

 

Factos & tristes figuras

04
Set19

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Temos boca é para falar, é verdade. Agora, tenho ouvido tanta coisa que nem acredito que vivo num mundo assim. Ah, pois é, já me tinha esquecido, chegamos finalmente à  era da inteligência, pelo que se vê artificial. Ou foi muito sol na cabeça. O Algarve, os toldos e as bolas de berlim, com ou sem creme, foram o máximo. Mas não me sai da cabeça o panorama deste rectângulo, que em Outubro vai a votos.  E não me sai também este mindset tão cool, que parece até nem haver  fossos entre as qualidades de vidas. Isto sim,  é quase sufocante. Criminosos, os fossos. E a conversa de elevador segue serena e impávida.

Apenas por alto, e porque também tenho ouvidos, deixo uns números. Sim, porque as pessoas são vistas, a maior parte das vezes, como números, sondáveis, bonecos para as nets. E o que nós gostamos de números!

Há umas centenas de pessoas, que desempenharam uns cargos políticos durante algum tempo, e que por isso estão a receber subvenções vitalícias. Ouvi os nomes, na rádio, e não queria acreditar. Não vou aqui repetir os nomes, mas muitos são os de pessoas que hoje ocupam cargos bem pagos, e acumulam com a dita vitalícia. Também ouvi dois nomes de pessoas que recusaram as ditas.   Tudo figuras públicas.

No "outro" lado do planeta há quem viva em roulotes porque é a única forma de estar perto do liceu onde vai - surprise! - dar aulas este ano. O caso que ouvi é o de um professor de 53 anos acabadinho de saber que vai para Faro, deixando o Liceu de Torres Novas (a mulher e o filho), e que ajuda a pagar as chorudas vitalícias. É a vida! Não, não é.  É sim mas é a política a ter há muito deixado de ser a promoção do bem comum.

E depois são os músculos do outro, são as Catrinas desta vida, os reality(?) shows e os direitos das minorias.

Comum é a corrupção dos que nunca fizeram nada a não ser "roubar" os vulneráveis desta vida. Tristes figuras, porque isto não fica assim. Disso tenho a certeza. Porquê se quase tudo parece indicar o contrário? Porque as vidas não acabam nos cemitérios. Não sendo este post um gesto de justiceiro, é só para lembrar aquele amargo de boca e de coração do regresso da festa. Da tristeza do fim de festa.

Eu prefiro a tristeza que chora com os gestos que, por pequenos que sejam, são uma luz, são vitórias que arrancam do mal o bem. Sou testemunha. E sou  uma grande minoria, feita do mesmo barro de que todos somos feitos. Se calhar até aceitava a vitalícia...

De que Proveito?

 

Exortai-vos cada dia uns aos outros,
até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13)

O grande lobby da Igreja

03
Set19

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Vou no terceiro post seguido sobre a Igreja. Mas Tolentino tem pano para mangas. Por outro lado, tenho visto tanta ignorância nas redes sociais, que não se aguenta. Ignorância ( não digo "ignorantes") em relação ao que é a Igreja. Não devia ser isto causa de tanto espanto, nesta vida tão agitada, e que prescinde da História (dá muito trabalho, deixou de ser prioridade, veja-se o sucesso de Youri Harari...), que já nos habituou ao superficial e ao escândalo. Refiro apenas um exemplo: a expressão "chegar a Papa". Sou insuspeita porque reconheco o valor de José Tolentino. Agora, o que não se admite é que se entenda a Igreja como uma carreira. Na prática muitos são os que nela estarão nessa corrida. É como em tudo o que é humano. E a Igreja é então reduzida a uma trimilenar empresa, ou a uma ONG, apetecivel tanto quanto as riquezas que possui, a influência que tem, o prestígio que dá. Os lobbies abundam, à velocidade dos escândalos que se têm tornado públicos (e hoje nem refiro os também trimilenares episódios em que ficou mal na fotografia). Daí os lobbies para chegar a esta posição, ou àquela, e a Papa.

Não. Não se trata de "chegar a", a lógica da Igreja é outra, devido à sua natureza. Como dizia a minha avó, "estão muito mal enganados!". E lobby só há um.

A Igreja foi fundada por Jesus Cristo, sobre uma "rocha", Pedro, o amigo que o negou várias vezes antes da cantoria do galo. E foi fundada para ser a "luz das gentes". Assim foi e assim será. Com Pedro, e os outros amigos. Feita de barro, portanto, para que o tesouro que a faz diferente de tudo mais, se tornasse inequívoco. E a História está aí para contar. A lógica é a da escolha. Pedro apascenta os meus, diz Jesus.  É o Espírito que escolhe, é Ele o lobby, é Ele que move, numa lógica que nos escapa.

Não são os meus pensamentos, nem os tantos lobbies que abundam nos corredores do Vaticano e jornais, que sopram a verdade. Que lhes faça de Proveito! Eu continuo a entender que a ignorância é pior que o piolho e que umas lições de História fazem muita falta (usem as roulotes para campismo e não para os professores, que já é um começo).

 

Exortai-vos cada dia uns aos outros,
até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13)

 

Será a Igreja uma gaiola?

03
Set19

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Tolentino Mendonça, nomeado ontem Cardeal, foi convidado por Francisco para pregar o retiro de Quaresma da Cúria Romana, em 2018, subordinado ao tema "O Elogio da Sede". "Obrigado por nos ter recordado que a Igreja não é uma gaiola para o Espírito Santo, que o Espírito voa também fora e trabalha", disse o Papa após o retiro, acrescentando: " (...) com as citações e as coisas que o senhor nos disse, fez-nos ver  como [o Espírito Santo] trabalha nos não-crentes, nos ´pagãos´, nas pessoas de outras confissões religiosas." Já muita especulação correu a propósito desta escolha. Basta folhear os media.

As interpretações desta nomeação são múltiplas. Tanta tinta que de nada serve se se entender o que Francisco reconheceu ser o Espírito Santo. Não cabe nas estreitas leituras das cassandras da nossa praça. Isto é o mesmo que dizer que a Igreja tem uma natureza à qual passa ao lado muito do que se diz e opina. A quem interessa o que é a Igreja?

E a Igreja o que é? Quem me diz?

A Igreja interessa à nossa sociedade se o tema são escândalos, sexo e estratégias de poder. Tudo o mais, e que é afinal o que importa, é desinsteressante, não vende.

O sustento da Igreja é, como reconhece Francisco, o Espírito Santo. Que sopra onde quer e como quer. Tudo o mais é folklore e macacadas. O sustento da Igreja está na Misericórdia que precisa de nós para cuidar dos pobres dos mais pobres.

Salvar o homem com o sound beat do Espírito é o que nos pode dar um Bom Proveito!

Do Evangelho que é lido hoje nos quatro cantos do mundo, Jesus diz: " O Espirito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos Pobres; enviou-me a proclamar a liberdade aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos...". Fora de Gaiolas e joguinhos...

 

Exortai-vos cada dia uns aos outros,
até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13)

D.Tolentino no Bosque

02
Set19

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Agora com o novo Cardeal José Tolentino Mendonça, veio à minha memória o Bosque onde um dia o encontrei. No teatro de Luis Miguel Cintra. Façam também um Bom Proveito desta aventura metafísica no Bosque da vida e do "eu"!

«Cornucópia significa bênção, abundância.

É também um teatro que faz 40 anos e acaba de estrear uma peça com base num livro encomendado ao pe. Tolentino Mendonça pela Guimarães capital da cultura. O Estado do Bosque, no domingo, foi seguido de uma conversa com o autor, os atores e o encenador, um deles, Luís Miguel Cintra. Eu, especialista em teatro, poesia, literatura, transcrições narrativas e afins? Não. Escrevo aqui uma experiência estética e o que vejo nesta segunda incursão de Tolentino pelo teatro. "Gosto de me meter", sublinhou na conversa connosco. As palavras e os gestos aqui implicados são uma aposta poética, não fosse o diretor deste teatro um homem que, tal como o seu Manoel de Oliveira, nos põe a liberdade nas mãos e que, de máscaras, só mesmo as do teatro. Só vai ao bosque quem quer. E se vai, vê-se numa grandiosa e simples emboscada. Acabaram-se os teatros. Há trilho para mim? Parece que ele já me encontrou.

O texto é uma explosão poética e atinge meteoricamente quem se põe a jeito. Forjado de palavras que todos entendemos - e passamos a entender melhor - não significa, por isso, que seja brincadeira, à solta, sem o peso do pó. É um direito que tem do avesso, ou no forro, uma densidade metafísica carregada de sabedorias seculares (a começar pelo título), que se dá assim, em câmara clara. A encenação tem a beleza e a magia de nos mergulhar nas perguntas que temos gravadas no coração. "Tem um coração e serás salvo", ouve-se a certa altura. Vi várias vezes e de cadeiras diferentes, e é sempre uma coisa nova. Como eu. Mais: tem a potência de me fazer entrar no bosque da minha vida de uma forma que, sem deixar de ser profana, é uma sagração.

Os silêncios, os vários estares às escuras, a energia das palavras e dos gestos, as caras de espanto naquele limiar entre as cadeiras e tudo, a leveza e seriedade da performance cortam a direito, e encontramo-nos algures em nós, a respirar, rir e chorar a paredes meias. Deixamos de estar no teatro, a assistir. Começa assim: "Qual é o sentido do trilho?" E repete e repete: "Tens medo?"

Esta obra de arte, como as outras, é aberta. Entendo-a como um nada que pode ser tudo. As certezas que tenho como adquiridas são espetacularmente dançadas. De que vale uma resposta se eu não fiz a pergunta? Trata-se então da pergunta pelo sentido da existência, que é o que Luís Miguel Cintra reconheceu estar sempre a fazer no que produz ou re-presenta. Por isso ele acreditou desde o início na pinta deste teatro para o levar a cena. Para Tolentino trata-se de uma produção que escancara a humanidade do humano. Do perguntar, do profano, como ele sublinha. Partimos do que vemos, tocamos - tinha sublinhado há dias à TSF - como poderia ser de outra forma? Sim, não podemos deixar de ser materialistas. Carne.

A história é simples e inteligível, é a minha. Encontro-me nascida e vou à procura do porquê. No teatro vivem: Jacob, Peter Weil, Viviane Mars e o Destino (gravação em repeat de uma infância na Casa Rosa). John Wolf - pleno da imponência de Cintra - vai à frente, é um guia no sentido em que ajuda a perguntar, a despertar para a viagem. Está à porta do bosque. Quem apenas quer a meta não viaja. Mas é cego!? Explica Tolentino: porque ele aprende também. Todos se precisam uns aos outros.

O Estado do Bosque pode levar a uma pergunta capital, que nos pode levar a uma resposta inesperada, um acontecimento. Não tem mensagem (esta, na arte, está sempre a mais). A certa altura diz o cego: basta dizeres SOU. O facto é que eu sou. E daí? Eu aconteço? Sou acontecida? "Andamos aqui a viajar ou a fugir?", grita-se. Pergunta abençoada, até 24 de Fevereiro, em cena. Na minha memória sempre.

 

Não há receitas, etiqueta, ou etiquetas. No final da primeira das sete cenas: sinto que o teatro acabou. Quem se prende às muletas, e ao diz que diz, morre, ou vive de uma má tristeza. A boa tristeza é a da saudade. Wolf sabe que o que falta é esta espera. Repete-o. E que há sinais para uma liberdade. Tens ouvidos? Pés teus? Por isso termina assim: segue.

O teatro acabou. A cornucópia não.

Mestre em Filosofia pela UCP

Exortai-vos cada dia uns aos outros,
até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13)

Tarantino: deu_ me as pistolas todas!

29
Ago19

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O que fui encontrar! Agora que me preparo para ver o novo filme de Tarantino, eis que já me tinha esquecido que tenho todas as pistolas. Mantenho tudo o que disse então, neste artigo publicado no Jornal Público. E fica prometido um artigo sobre o novo filme.

Para já Bom Proveito com o Django!

«Quentin Tarantino. Não me interessa ler primeiro a crítica. E nem tenho tempo! E não sou especialista em nada. Escrevo quase sempre "à minha vista". Claro que vivo neste mundo, e é sempre, neste caso, a questão da violência do sangue "à grande e à francesa". Mas o que julgo é que este filme é de uma humanidade desarmante, porque com a sua simplicidade me faz, mais uma vez, entrar no meu sangue. Nos sangues. Pouco me importa a intenção de Tarantino. Essa história de que os filmes têm que ter "mensagem" mata os filmes. O cinema é vida, e esta não tem mensagem, é um acontecimento. Olho por olho, dente por dente? Não. O que vi e vejo é que Tarantino tem olho e tem dente para mostrar o que é a vida. E quão ridícula sou ao tender para a demissão de viver em primeira mão. Sangue? Conheço o que corre nas minhas veias e nas daqueles com quem me cruzo - e às vezes ignoro - todos os dias. Há o do talho. O da vida. O dos dedos cortados. O dos hospitais. Realmente só vemos o sangue que queremos. "Tragam-me uma que tenha sido violada!", gritava um jornalista duma influente cadeia televisiva norte-americana para fazer uma reportagem (contou-me um jornalista que estava lá e assistiu a este "fazer" jornalismo). E à noite papa-se no "telejornal". E está-se a par e somos "solidários", à distância. Humanos. Talvez seja o filme mais simples de Tarantino. Na história, na clareza, na beleza da linguagem. Não é um western uma coisa simples? No centro há um amor que ganha, vencendo todos os obstáculos (não é isso que queremos para nós?) e uma justiça como desejo e exigência (também é connosco). Mas tudo acontece na câmara de Tarantino de uma forma impossível, numa linguagem imagética que é só dele, num humor descarado, óbvio, e que me faz rir do sério sem o banalizar. A cena do "final" da irmã de Leonardo DiCaprio é disso exemplo. Não é para distrair. Mas arranca uma brutal gargalhada muito, muito séria. O que concentra ainda mais. Qualquer criança o pode ver. Tarantino é também uma delas. Pode beliscar virgens ofendidas. Mas sabemos que o sangue não é sangue. Que estamos diante de hipérboles. E as crianças percebem isto tão bem. Fartinha de fariseísmos. Em violência clicamos, nós e os nossos, todos os dias e no pasa nada. Eu cá falo por mim. E o pouco que vejo à minha volta é parecido. A "imagem" do filme tem a marca Tarantino: uma imagem forjada. Isto é: o humano (o olhar do Django é qualquer coisa de desarmante, penetrante, molhado, a pingar humano, a pingar-lhe o coração para cima de mim) cosido com imagens "quase" banda desenhada. A parecer kitsch. O olhar de Django é tudo isto e o olho de Tarantino capta genialmente tudo isso naquele segundo. O melhor do Público no email Subscreva gratuitamente as newsletters e receba o melhor da actualidade e os trabalhos mais profundos do Público. Subscrever × Imagens metáfora que nos dão um real de uma cor avivada, hiperbólica, inverosímil, enfim, toda ensanguentada. Mas de um sangue que - para usar a expressão de Chesterton que assim define o que é o "erro" - é, acima de tudo, uma verdade enlouquecida. Tarantino é um "brincalhão" que nos tira do nosso falso "sério" ao criar um mundo autónomo em que o sangue e as pistolas não o são. Com um orçamento mais "espaçoso" faz-me entrar nos nossos sangues e põe-me as pistolas na mão. E já perto do final, e entre a variedade e beleza de músicas da banda sonora, não se esquece, no meio de uma daquelas cenas de tiroteio fatal: "Sometimes I feel like a motherless child." Quem quer quer, quem não quer não quer. Não passa por isso a minha libertação? Passa-me as pistolas. Todas.»

*Mestre em Filosofia pela UCP

Tarantino: onde ponho e olho e o dente? | PÚBLICO

Exortai-vos cada dia uns aos outros,
até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13)

 

Acabou por confessar tudo

28
Ago19

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Confessar acabou por ser natural. E tudo num livro que é uma autêntica obra de arte. Quem sou eu? Quem é Deus? São as questões que importa. Não, não cairam em desuso. Parece, mas não. Leiam este livro com muito bom proveito. Deixo umas das mil linhas que já escrevi sobre este grande homem.

1. Os 13 livros que compõem as Confissões de Santo Agostinho têm uma unidade interna que não é imediatamente perceptível. Podem distinguir-se diferentes níveis de discurso, do teológico ao filosófico, do psicológico ao literário, para referir os mais proeminentes, o que, numa primeira leitura ilude o sentido do pensamento que lhe subjaz.

Contudo, a multiplicidade discursiva que caracteriza a obra é moldada por uma unidade intencional, ao mesmo tempo chave de leitura e verdade de sentido, e que se pode resumir numa pergunta: “quem sou eu?”.

A pergunta é formulada de diversas formas ao longo do texto, e apresenta-se não raro associada à resposta encontrada por Santo Agostinho, e que consiste na afirmação do homem como um ser criado por Deus e para Deus, fonte de plenitude.

A famosa expressão com que inicia o Livro 1 – tu nos fizeste para ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti[1] – é, com efeito, o horizonte sempre presente ao discurso, sendo, nessa medida, estruturante lógica e ontologicamente. As confissões das Confissões são possíveis no reconhecimento de uma medida que excede o homem.

 

Não obstante esse elemento iluminante, isto é, Deus encontrado na plenitude da sua inteligibilidade e finalidade, é possível reconhecer nas Confissões o ponto em que Santo Agostinho encontra eco no perguntar que desconhece ainda a resposta. No espírito de Blondel, também ele procura razões objectivas: um cristianismo que valesse só para mim não é suficientemente atractivo, correspondente, verdadeiro.

O que se confessa nada tem de confessional, nem se confunde com o sacramento do mesmo nome, a Confissão ou Reconciliação , um dos sete sacramentos da Igreja, mas antes se resume no tornar público aquilo que se encontrou e que mudou radicalmente a sua vida. Porque o faz Santo Agostinho? Não poderia ter calado a sua conversão? O autor das Confissões sabe que o que encontrou não lhe pertence, e, assumindo a sua vocação de filósofo, desenvolve todo um discurso acerca das razões da sua esperança.

Num primeiro nível, explicita as razões que levem ao acreditar e, num outro, as que entendem os conteúdos revelados pelo próprio Deus mediante a Igreja.

Procuraremos nesta leitura das Confissões o primeiro nível referido, esse ponto comum ao crente e ao não crente, esse ponto que é apenas o perguntar “quem sou eu?”.

É um ponto de humanidade, que tem vindo a ser repetido incansavelmente na história dos séculos, e que perpetua o profético “conhece-te a ti mesmo”, de Sócrates.

De uma forma ou de outra, adulto ou criança, explicita ou implicitamente, na obra de arte ou no fazer da equação, é uma pergunta universal que todos fazemos. E ela aspira a uma resposta que preencha todas as lacunas do fazer e do agir.

Mesmo que seja posta de forma descontinua, desinvestida, distraída, a pergunta é, por um lado, um dado do qual não se pode fugir sem mais e, por outro, um convite a uma radicalização verdadeiramente humana.

Santo Agostinho explicita esta necessidade do seu confessar do seguinte modo:

A quem conto tudo isto? Não é a ti, meu Deus, mas é na tua presença que eu conto isto aos da minha espécie, por mais pequena que seja a parte dele que possa deparar com estas minhas letras. E isso para quê? Para que eu, e todo aquele que isto ler, pensemos de quão profundo é preciso clamar a ti.[2]

2. Ponto de Ordem Porém, antes de entrar nesse ponto, faremos um breve apresentação dos 13 Livros, nas suas linhas gerais, destacando a lógica que os articula, com o objectivo de, por um lado, facilitar a leitura da obra e, por outro, de, desde já, entrar no estilo, método, e conteúdos do pensamento de S. Agostinho.

Os livros 11, 12 e 13 formam um todo à parte e são, por assim dizer, o bloco teológico da obra, girando em torno da noção de criação. A fonte é a Bíblia, a fé, sendo a razão chamada a explicitar os conteúdos revelados.

Os livros 1 a 6 são, por seu turno, eminentemente biográficos, contando a vida de Santo Agostinho desde a sua infância. Neles se respira também o ambiente cultural da época.

Os livros 7 a 10 são, por assim dizer, o conjunto central da obra, onde a conversão do eu à medida que o preenche, é descrita e explicitada nas suas razões lógicas e ontológicas. A intensidade dramática das Confissões tem neles o seu lugar por excelência, podendo aí serem também encontradas algumas das mais belas páginas da literatura universal, como aquela em que Santo Agostinho lamenta que o encontro com Deus tenha acontecido tarde de mais.

Aliando uma singular profundidade filosófica e teológica a uma inconfundível beleza de estilo, é, apesar do tom pesaroso, a afirmação de uma positividade, dum eu realmente novo:

Tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! E eis que estavas dentro de mim e eu fora, e aí te procurava, e eu, sem beleza, precipitava-me nessas coisas belas que tu fizeste. Tu estavas comigo e eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti aquelas coisas que não seriam, se em ti não fossem. Chamaste, e clamaste, e rompeste a minha surdez; brilhaste, cintilaste, e afastaste a minha cegueira; exalaste o teu perfume, e eu aspirei e suspiro por ti; saboreei-te, e tenho fome e sede; tocaste-me, e abrasei-me no desejo da tua paz.[3]

As Confissões são o reconhecimento agradecido de que, apesar de tarde, a vida é animada por uma realidade transcendente, só ela capaz de tornar feliz o homem.

3. Exterioridades O homem vive normalmente dominado pelas coisas que o rodeiam, incluindo o seu próprio corpo, que assim é muitas vezes visto e vivido apenas como uma coisa, ou dominado pelos outros que, sem o querermos, são reduzidos, tal como eu, à categoria de coisas. Usando a expressão de Santo Agostinho, tudo isso me retem. Vive-se numa ilusão de liberdade, de que tudo se possui, quando afinal são as próprias coisas que dominam o pensar e o fazer, como se de um império se tratasse.

 

A qualidade de vida assim realizada é reduzida à dimensão do fora, ou do homem exterior, que, nas Confissões se opõe ao homem interior.

É universal esta experiência de uma alienação, de um viver sem mim. De um passar anónimo pelas coisas, e as coisas anónimas por mim.

Configura-se assim uma errância sem destino, que é, por si mesma, testemunha de uma insatisfação ou, visto de outro prisma, de uma satisfação insatisfeita. As mais diversas modalidades de acção expressam uma plenitude sempre incompleta, um êxito sempre votado ao fracasso.

As coisas oferecem-se como dominantes, num reinado que as institui como finalidades em si mesmas, numa promessa de felicidade que nunca se chega a realizar. Embora nem todos concordem quanto ao que é a felicidade, todos os homens desejam ser felizes, mesmo que digam o contrário, ou dêem outro nome a essa procura de plenitude, ou plenitudes.

Mas o homem reconhece que só um prazer duradouro, uma realidade que permaneça, a eternidade no tempo, lhe pode conferir o êxito da procura. Contudo, a resposta, vivida, é cruel: tudo acaba, e não sei quem sou, nem o que, ao fim e ao cabo, as coisas são. A morte é um corte incontornável, dedicando as Confissões a este ponto um lugar de destaque, porque é a morte de um amigo que vai levar Agostinho à filosofia.

O saber do perguntar inquieto sabe que nada do que é experimentado pode alguma vez calar o desejo de plenitude, de uma satisfação final, que assim o é por deter a última palavra.

Em que consiste essa satisfação? Podemos dela dizer o que Santo Agostinho diz acerca do tempo no livro XI, isto é, se não lhe perguntam em que consiste o tempo, ele sabe o que é, mas se lhe perguntam ele já não o sabe dizer.

O homem é marcado por um desejo de plenitude, por uma intencionalidade que, se bem que de uma forma indistinta, sabe perfeitamente identificar o que lhe corresponde. É a intuição do Cântico Negro, de José Régio: sei que não vou por aí. Ou a do Quase, de Mário Sá-Carneiro: ao menos se eu permanecesse aquém.

A exterioridade permite por isso uma saída humana, a identificação de um nível do eu que permanece irredutível à errância. A pergunta “quem sou eu?” é assim restituída ao nível de interioridade, de um eu que se desdobra e se reflecte, à procura da eternidade.

 

No entanto estas duas vias encontram-se misturadas. Expressão cara ao filósofo, é o reconhecimento de uma liberdade limitada. O livro VII dá conta de uma luta interior entre o mesmo eu, que quer e não quer.

A experiência do eu dividido é uma experiência universal. A famosa frase de S.Paulo – o bem que quero não o faço, e faço o mal que não quero – não faz mais do que reconhecer uma experiência universal que desvela a verdade do humano como uma liberdade inalienável. Não se trata apenas de uma verdade ética, mas acima de tudo de uma experiência ontológica. A errância, o andar perdido em exterioridades, é reconhecida como disformidade, afastamento de si.

A luta de vontades é pois a luta do eu consigo mesmo, num movimento que Santo Agostinho designa de amoroso. Mas, e mais uma vez, a realidade se deixa encontrar numa mistura, num entrecruzar de dois amores, ou dois pesos. O meu amor é meu peso, repete-se incessantemente nas Confissões.

A conversio, ou conversão, é um virar-se para a dimensão mais interior de si mesmo, é um desgostar-se da aversio, ou do movimento de si para longe de si. É, numa palavra, ensimesmar-se, ser o que se é, mesmo que, num primeiro momento se ignore o que isso seja.

É a posição de um eu que quer a realização dessa dimensão que devolve o interior às exterioridades, num casamento do dentro e do fora, que permite caracterizar o pensamento agostiniano como um realismo integral.

É neste primeiro momento, que ignora ainda o que fé ilumina, uma posição de abertura, do reconhecimento de que há uma dimensão que não se esgota numa horizontalidade ou imanência sem sentido.

5.Transcendências O Sentido Religioso é a dimensão do humano caracterizada pela procura de uma ligação ao x que, transcendendo a temporalidade, confere sentido à vida em todos os seus aspectos. Trata-se de uma dimensão universal, uma vez que mesmo que de facto essa procura não seja consciente, ela está presente implicitamente no fazer e no pensar dos homens.

 

Muitas vezes esse x é identificado com um factor do tempo, realizando assim a função de sentido, mas de uma forma redutora.

Não se confunde Sentido Religioso com Religiões. Não se confunde Sentido Religioso com Cristianismo. No percurso das Confissões tudo se distingue com clareza, num apresentar dos passos que concluem pela razoabilidade da Revelação Cristã. “Toma e lê, toma e lê” – a frase que Santo Agostinho ouve no jardim de Milão sugerindo a necessidade da leitura da Bíblia – é o convite da Revelação à razão, sendo que a decisão, que é a abertura a essa dimensão desconhecida, exceda já a dimensão filosófica.

A filosofia vai até ao ponto de reconhecer a necessidade de uma dimensão outra, sem a qual todas as modalidades do movimento do perguntar, do agir, do pensar, do ser, seriam impossíveis. É cara a Santo Agostinho a expressão que se refere ao Verbo de Deus “N’ Ele somos, nos movemos e existimos”. A filosofia nada diz sobre a natureza desse quid, mas apenas que ele se impõe como uma necessidade do pensamento, sem o que nada se daria como dá.

A Teologia parte, por sua vez, dos dados revelados, e aprofunda, pela razão, as suas necessidades. Dum lado e do outro, é a mesma razão a trabalhar, em acção.

Desde a sua juventude que Santo Agostinho procura esse outro, esse desconhecido. O Sentido Religioso das Confissões é apresentado na sua radicalidade uma vez que não se confunde com nada que não seja o querer de algo realmente capaz de dar sentido à vida. Por isso, como já referimos, o gritar de sentido há-de ser profundo.

O maniqueísmo não satisfaz a razão por estar ferido de um dualismo ontológico que não deixar lugar a uma unidade integradora.

O neoplatonismo, por apresentar a Verdade como um Absoluto Uno é a posição que mais se aproxima do Cristianismo. Mas em nada se compara à provocação do Cristianismo, que a Unidade “casa” com a Verdade, a qual se apresenta na história no “rosto” humano de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

A experiência que o autor das Confissões tem da liberdade é a de uma transcendência que confere ao homem uma dignidade ímpar. É, apesar das limitações de vária ordem, a possibilidade de tomar a vida nas próprias mãos.

 

A transcendência entre o bem e o mal, linha matriz do maniquéismo, que os vê como princípios ontológicos equivalentes e irredutíveis entre si, desloca a dramaticidade da luta de vontades ( que é interior ao eu) para uma luta de naturezas, externa ao homem.

Também o neoplatonismo desinveste da liberdade humana, ao remeter a lógica das acções humanas para a arena da reencarnação, ao defender um destino que se cumpre por mãos alheias. Se, numa fase inicial, e ainda atraído pelas doutrinas maniqueístas, Santo Agostinho se sente inclinado a aceitar que o homem não é senhor do seu livre arbítrio, à medida que o tempo vai passando ele vai experimentando de uma forma cada vez mais evidente que o ninguém escolhe por ele, que é ele, e não outro, aquele que muitas vezes adia a decisão vital para a existência.

Só a proposta de Jesus Cristo oferece uma liberdade à altura da experiência humana de Santo Agostinho. O que é revelado pelo Cristianismo acerca da liberdade humana encontra na razão uma correspondência que atrai o pensamento e a acção.

Santo Agostinho sabe que ninguém quer por ele. E ele é o que quer e não querer. O homem tem uma imanência que o transcende. O eu que se detem em si, que reflecte, vai-se amorosamente descobrindo numa imanência que se transcende numa interioridade que se vai revelando sempre cada vez mais amorosa.

Lugar privilegiado desse amor é a amizade. O amor aprende a ser o que é no seguimento de uma humanidade mais completa, mais realizada, mais à frente no caminho. É o que Santo Agostinho reconhece em três pilares para a sua conversão: Alípio, o Bispo de Milão e Mónica, sua mãe. São transcendências que apelam a um sentido religioso mais vivo, a um perguntar mais intenso, que assim facilitará o encontro desejado, com o Deus que salva.

Esta companhia encontrada no caminho é já a modalidade que torna possível e real a plenitude que o coração inquieto procura.

As diferentes modalidades de transcendência, passam pelo crivo da imanência confessada, a qual se dirige ao Tu Transcendente a todas as transcendências do seguinte modo:

Tu eras mais interior do que o íntimo de mim mesmo e mais sublime do que o mais sublime de mim mesmo.[5]

Exortai-vos cada dia uns aos outros,
até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13)

 

* Utilizamos a edição crítica das Confissões (indicando livro, parágrafo e página), tradução e notas de Arnaldo do Espírito Santo, João Beato e Maria Cristina de Castro-Maia de Sousa Pimentel, ICM, Lisboa, 2000.

[1] Confissões I, I.1, p.5

[2] Confissões II, III.5, p.61

[3] Confissões X, 27, 38, pp.491-493.

[4] Confissões IV, IV.9, p.133

[5] Confissões III, VI.11, p.101

 

O desejo de Mónica

27
Ago19

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Há coisas que não mudam. O que não faz uma mãe pelo seu filho? Para quem este blog só tem os segredos que são mesmo segredos, é de estranhar apenas que aqui não escreva sobre os meus queridos. E não é segredo para ninguém a minha pertença à Igreja Católica, que hoje comemora Santa Mónica. Nela me move o entender de todas as mães.

Uma mãe nunca desiste e faz gato sapato. Deseja o melhor, e não quer estragar. Mónica de Aosta deseja que o seu filho Agostinho tenha uma vida boa, mas não feita de disparate. Durante 32 anos reza por ele ao Deus em quem acredita, o Deus em quem o seu filho irá acreditar. Mais reza por aquele (mal ela sabia) que é um dos pilares da Igreja, já vai quase para 3.000 anos.

Testemunha Santo Ambrósio a respeito de Mónica, bispo de Milão, homem que marcará também a vida de Agostinho: "como se poderia perder o filho de tantas lágrimas?". Olhem o que aconteceu com a menina, a matilde, que hoje vai receber o medicamento caro que não havia cá?

Que lhe faça bom proveito, a ela e a todos os que vão poder ser tratados com o dinheiro que foi recebido pela campanha que os pais fizeram.  O desejo de Mónica também se concretiza. Agora é de natureza diferente, porque a Igreja é uma coisa absolutamente única, da qual vou aqui testemunhando isto e aquilo. Mas está tudo interligado...

 

Exortai-vos cada dia uns aos outros,
até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13)

 

 

O dogma da construção social do género

25
Ago19

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Nesta proliferação de opiniões sobre a identidade de género, sobre o Despacho, sobre a petição de milhares de assinaturas, os católicos levam sempre pancada.  São ignorantes na matéria, não conhecem os casos concretos, e a lista continua. Os católicos sempre foram vistos por grande parte da sociedade como retrógrados, a impediram o avanço da ciência. Importaria aqui menos ligeireiza. A História prova o contrário. Um bocadinho menos de ignorância ficaria muito bem aos intelectuais da nossa praça. Nem me dou hoje ao trabalho de o mostrar.

O que está agora em causa é obrigarem os meus filhos a viverem a sua escolaridade à sombra do dogma de que o género é uma construção social. Tenho muito pena mas isto é uma violência. Não me venham dizer que sou insensível aos que sofrem por não saberem o seu género, ou então por o saberem e quererem mudar. Sou sensível sim e conheço bem do que falo. Entendo é que há uma natureza, que nem tudo é contrução social, e que cada caso terá que ter um acompanhamento. Agora não se pode aceitar que se imponha a todos um dogma, o de que o género é apenas construção social. Seria o equivalente a obrigar missa diária nas nossas escolas.

Importa ver de que lado estamos. Eu quero o meu lugar. Deixa andar? Não. Pensar, sentir, leva tempo e muito, vento, vento, na cara, no corpo. Muito mar, muita onda. E é mais simples do que parece. Bom Proveito!  Matas-me com o teu olhar? Pode ser... 

 

Exortai-vos cada dia uns aos outros,
até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13)