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Bom Proveito

Bom Proveito

Visão ginástica da vida

31
Jan19

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Hoje de manhã, enquanto me arranjava para ir para o trabalho, ouvi na rádio que é o dia de fazer as coisas ao contrário. As regras vivem-se ao contrário. Então lembrei-me de Leonardo Coimbra, um flósofo português que escreveu sobre S. Francisco de Assis como tendo uma visão ginástica da vida. "Francisco de Assis é o mais humilde dos homens, porque nele  a visão inversa (a visão ginástica de Chesterton)  se faz visão normal e dominadora. Jamais o pobrezinho da Assis deixará de ver os seres, as coisas e os mundos, suspenso do infinito do amor divino. Daí o seu amor à Pobreza." (Leonardo Coimbra, OC, Volume 2, p. 880). 

Acordar com este "pino" é muito bom. E não se faz de uma vez por todas. É como tomar banho, o pequeno almoço. Viver é uma coisa, querer viver é outra.

Acordar assim com este "pino" não é coisa que acontece do nada, naturalmente.  A minha liberdade  depende dessa presença no olhar, de que falei aqui ontem. A presença vem primeiro, antes do acordar. E ao acordar não é que chegue atrasado! Chego a tempo de  fazer esse exercício milenar a que se chama "oração". Todas as orações de todas as religiões são boas. A de Francisco de Assis, ele sabe que foi o próprio Deus que no-la ensinou.  Os amigos de Jesus pediram-lhe: "ensina-nos a rezar". Pai, Nosso, que estás no Céu, etc. Um Pai Nosso bem rezado, remoendo, saboreando, interrogando, cada palavra, é obra, é ginástica. E vale muito.

Só assim é possível retribuir , agradecer. Imaginar cada situação neste pino é outra onda. É vivê-la. Dá uma unidade que permite uma alegria grande, transbordante. E não são precisos malabirismos. O poder desta oração vem de eu nada possuir a não ser querer ser livre. De ver tudo na mesma origem, numa igualdade que não é um igualitarismo apalhaçado, ou inconsequente. Por isso é que aqui está a razão do dia-logar. Para Francisco tudo pertencia à mesma família. Até à morte ele apelidava de irmã.

Já no autocarro encontrei no lugar ao meu lado o Eduardo, que vi pela primeira vez na vida. Nesta visão ginástica, falamos como irmãos. Não tenho nada mas tenho tudo. Nada me é estranho. Indiferente. Tudo me interessa e dá gosto.

Assim a vida tem outro sabor, cheira a novo e suspende-me da fonte.  E os nossos olhos ficam, como dizia o irmão Leonardo, rasos, de lavados nas águas originais.

 

Exortai-vos cada dia uns aos outros,
até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).

 

BOM PROVEITO!

Refresco de Sophia

30
Jan19

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Sophia de Mello Breyner Andresen faz este ano 100 anos que nasceu. Regresso à mulher exemplar, a que não o é por ser modelo mas por ter feito emergir o humano de forma tão genial que me calo. Nestes dias de sufoco de um aquecimento violento e mortal, mergulhar no Mar, sempre presente no seu olhar, no seu corpo todo, é exercício que renova a minha vida. É conhecido o programa das comemorações. Eu começei a semana passada, com "Contos exemplares", (1962), com um olhar para o Panteão, para o prémio Camões que lhe foi atribuído, para as coisas...

Exercito o olhar. Uso a atenção. "O meu interior é uma atenção voltada para fora", diz ela aos meus ouvidos, e a todo o meu ser.

As comemorações dão-nos uma oportunidade para refrescar a alma. E é de refrescá-la também o que reconhece o autor do prefácio dos Contos. Uma pedrada no charco na cultura dos nossos tempos. Melhor, um apontar para o eterno pecado daquilo a que chamamos cultura. A cultura mede-se pela presença que o olhar reflecte.

Os Contos são dedicados ao Francisco, "que me ensinou a coragem/e a alegria do combate desigual", escreve Sophia na primeira página em branco, dos Contos. Por aqui passa também o que é a cultura. Explico. 

Deus é o busílis. Não se passa sem ele. Até se pode dizer que um ateu é um homem que muito acredita. Ora o pecado cultural, de ontem e de hoje, é o de reduzir deus a um valor. É pecado porque é invocar o nome de deus em vão. Baixar deus a uma realidade do meu tamanho é dizer que se trata apenas de um valor. Mas para isso não é preciso falar em deus. Já temos tantas ONUs. E há tantos nomes.

 

Deus, mesmo mesmo, é aquele que desconheço, ou a "ausência" tão dolorosa que há quem não a suporte e desista. Aquele diante do qual se pergunta: "quem sou eu?". Sim, a pergunta é esta, e não ao contrário.

Deus é outra coisa. Que eu não sei. Mas por menos que isso, fiquemo-nos pela moral. É melhor que nada mas não enche, não refresca. Eu quero mesmo esse desconhecido? Peço também ao Francisco, coragem (=acão do coração) para continuar.  Não coragem para ir andando, mas para viver. A vida é mesmo uma luta. Desigual. Mas fonte de alegria!

O Abraço, esse veio antes. Aquele que me cativou o olhar, desde o dia em que vi a luz nos olhos e no colo da minha mãe. Querida Esmeralda! Uma presença que torna a narrativa numa carnation (Flannery o' Connor). O esplendor da presença das coisas, como repete Sohia sem cessar. O Deus de Sophia cabe. Sim, porque não fui eu que tirei, nem as medidas do mar, nem das montanhas, nem as do meu coração. Mas sei que tenho coração, fui agarrada para sempre.

 

Vai um refresco?

Exortai-vos cada dia uns aos outros,
até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).

 

BOM PROVEITO!

 

Bom Proveito

28
Jan19

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Começa hoje o meu novo Blog. Chama-se BOM PROVEITO. Depois de um ano de tanta reviravolta, em que estive "parada" após ter sofrido um AVC, volto aos Blogs da Sapo.  Ainda experimentei um outro, mas prefiro voltar aos blogs da Sapo, onde tive o Blog Rasante.

A imagem deste primeiro post  é a estátua de Joana d'Arc, em frente ao Hotel Regina, em Paris, onde Manoel de Oliveira realizou o filme que foi o meu baptismo de Cinema, após o que durante um ano, diariamente, escrevi o meu Blog Luz e Lata. O realizador é  em grande parte o responsável por este meu escrever. O Pão, A Caça, O Douro, e a magia de Angélica. O Gebo, a Literatura e hoje fico por aqui.

E claro, no novo Blog, vai continuar a haver muita Lata e principalmente Luz. Luz.

 

Agora começo. Quem viu a morte bem perto, ou desiste ou renasce. Eu decidi. Não por voluntarismo, mas por AMOR, que é maior maior que "eu". Não tenho tempo para balelas nem fazer de conta. O Senhor da vida puxou-me! O Senhor da vida é mesmo Bom. 

Nem adiar, nem fazer assim-assim. A vida não é para menos. Agora é olhos nos olhos. Em frente.

E com uma alegria e uma gratidão que me surpreende. A mesma mas outra.

 

O Rasante começou no meu primeiro Blog, o 100mim, no dia 11 de Dezembro de 2012, dia de anos de Manoel de Oliveira, onde escrevia, ao acordar acerca de tudo, porque tudo me interessa. Como ao cineasta. A ele dedico este escrever, assinando de cruz o que se disse a Bento XVI no CCB.

 

Continuarei Rasante , mas a um pulsar maduro. Novo. Cortante. Sem poupanços nem rodeios. Por isso começo hoje, dia 28 de janeiro, o dia em que a Igreja a que pertenço celebra o meu filósofo de eleição. Gosto mesmo muito de italianos. E, já agora, de comida italiana. E de tudo o que é boa comida e bebida. O vinho? Tinto. Sempre...

Enfim, um blog  Político. Mesmo. Com mãos na massa. Todas e toda. E todos os ingredientes. Receitas originais. Bons Chefs.

 

Exortai-vos cada dia uns aos outros,
até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).

 

BOM PROVEITO!