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Bom Proveito

Bom Proveito

A genialidade de Maria Rueff

07
Jun19

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Conheci pessoalmente Maria Rueff no passado dia 18 de maio, na Capela do Rato.  Foi  a  inauguração do Congresso Internacional sobre Etty Hillesum. Este post serve principalmente para destacar a genialidade de uma mulher. Uma espécie de parabéns. Agradeci-lhe a experiência de me ter levado à intimidade de uma escritora que quero conhecer. Quando for à Feira do Livro vou passar pela editora Assírio & Alvim.

Este  evento contou  com uma preleção de Klaas Smelik, diretor do Centro de Pesquisa Etty Hillesum – EHOC (Bélgica), e uma intervenção deTolentino Mendonça.

Nessa intervenção o arcebispo português confessou que o ano de 1990 foi para si marcado por três coisas: a sua ordenação sacerdotal, a publicação do seu primeiro livro de poesia e a descoberta de Etty Hillesum, uma judia holandesa, morta no campo de concentração de Auschwitz, em 1943, com 29 anos. Maria Rueff entra aqui porque a ela coube a leitura de textos de Etty. A ela e a Luís Miguel Cintra. Nesse encontro de homenagem a Etty Hillesum deu-se também a “estreia absoluta” da peça musical ‘Ecos’, de João Madureira.

Foi também nesse dia lançado o livro/álbum fotográfico ‘Nos Passos de Etty Hillesum’, de Filipe Condado, cujo prefácio foi escrito por Tolentino Mendonça, um projeto que nasceu de uma viagem/peregrinação à Holanda para conhecer a vida e a obra da jovem judia, organizada pela Capela do Rato em 2017.

Etty  faleceu no Campo de Westerbork, onde começou a descobrir a confiança em Deus e para este local do leste da Holanda levou a Bíblia e ‘O livro das horas’ de Rainer Maria Rilke.

O congresso internacional, realizou-se dois dias depois, 20 de maio, organizado pelo Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras, da Universidade de Lisboa,

Este Blog vai estar atento às palavras da jovem holandesa, cujas inúmeras cartas e 11 cadernos, que escreveu nos últimos dois anos da sua curta mas intensa vida, já algumas traduzidas e publicadas em português.

A genialidade de Rueff foi visível na vida que deu às  palavras de uma das cartas que leu como ninguém, como se fosse a própria Etty. Na carta escrevia a alguém, a descrever a situação em que vivia, terminado dizendo que "Comigo está tudo bem. Obrigada, Etty". Obrigada Maria, porque me abriu a porta. Obrigada também pelas gargalhadas que me dá sendo o José Manuel taxista, ou a Idália...eu sei lá!

Noa Pothoven: uma vitória macabra

05
Jun19

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Leio no Observador : "Eutanásia. Noa conseguiu morrer aos 17 anos depois de várias violações na infância". O título cheira a  vitória. Mas é simplesmente  uma vitória macabra.

A verdade é que Noa não conseguiu foi viver. A um jornal referido no mesmo Observador, a jovem conta a primeira vez que lhe foi recusada a Eutanásia, por não ter ainda 21 anos, e confessou não aguentar mais.  De facto, acabou por ser morta aos 17 ANOS...

Nascida em Arnhem, escreveu uma autobiografia, publicada há um ano e premiada várias vezes na Holanda. Ficar viva "não tinha qualquer significado", porque não tinha superado os problemas psicológicos desde que sofreu os abusos sexuais, lê-se. Mas será que viria a poder fazê-lo?

Na página da jovem holandesa,  liam-se incentivos de ânimo. Agora tem mensagens de dor pela sua morte. Conseguiu que a eutanásia lhe fosse concedida e morreu no domingo, em casa, rodeada de amigos.

Eu não sei tirar dores e  sofrimentos. E digo com Agustina que não precisamos de pessoas que nos digam o que está errado mas daquelas que indicam soluções.

Eu não tenho soluções. Mas tenho sofrimento e companhia. Lembra-me o que disse aquela idosa que, numa recente manifestação pela vida,  contou que pediu ao seu pai para a matar com a caçadeira. A resposta do pai: "isso é uma crise, filha!" E o que ela está agora tão bem.

Não quero ser ligeira. Por certo Noa precisava de tratamento, de carinho.  De ser violada é que não.

Há crises e crises. Abraçem-me, é o que diz o meu mais íntimo de mim. Grito. Não estarei muito longe da humanidade de Noa. E digo com  toda a convição que uma se uma história não acaba bem, é porque não era ainda o final. É assim que vivo, nesta sociedade que se afunda em insensatez. Sempre nos matamos uns aos outros, fomos nós que a matamos. Esqueçemos que não somos senhores da vida. Nem da morte.

 

Exortai-vos cada dia uns aos outros,
até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13)

Saio da Gaiola com Agustina

03
Jun19

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Imagem de "Vale Abrãao", do fime de Oliveira, homónimo de um livro da Agustina

 

Mulher única, genial. É preciso morrer para lembrar e fazer? Dura uma dia, as cerimónias fúnebres e o que lá vai, lá vai? Será?

Cada frase era um tiro e era de difícil digestão. Cada frase era uma bomba, disse-me Eduardo Lourenço, uma bomba. Não que seja difícil lê-la. Não. Só que ao tocar nas nossas feridas, faz doer. E até por vezes arruma-se e não se lê mais. Não se aguenta. Lourenço nunca arrumou. Ficava com a frase, e ela passava a ser parte do seu corpo. Fez a semana passada 97 anos. Agustina foi andando. Foi hoje, de madrugada, com 96.

Oliveira estimava-a muito. Também. Pediu-lhe uma Bovary do Douro, ela escreve "Vale Abraão", e saiu um dos mais belos filmes, com o nome "Vale Abraão". Obrigatório.

Andavam muito à bulha, é certo. Mas diálogo não se confunde com consenso.

Por razões que não  vêm ao caso, tenho-me lembrado dela. Muito.Vou recomeçá-la, ou recomeçar-me,com "Sibila", livro que a tornou célebre. Espero tirar Bom Proveito.

Não me venham dizer que estas obras de fôlego, deixam o mesmo sound que uma cultura que ao passar a um second step, de menos que o primeiro, já entranto entretanto esquecido, avança em frente, não se sabe para onde. Para um mundo melhor, dizem-me. Cheio de propósitos Se é para tirar a fome e fazer justiça, isso era para já. Mas vê-se onde chega a boa vontade ao nu. Somos uma humanidade ferida de morte. Um mundo melhor é aquele em que a morte foi vencida. É ler o que Agustina escreveu, para nós, no poder da palavra, do Logos, que a possuía. 

 

Exortai-vos cada dia uns aos outros,
até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13)