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Bom Proveito

Bom Proveito

Almodóvar deu-me este olhar a mim!

16
Set19

"Dor e Glória" (2019) de Almodóvar deu-me uma realidade que não esperava. O que aconteceu a Almodóvar? Abriu-me horizontes, agora sei melhor porque gosto mais de cinema. E porque gosto da sua mestria. Não será novidade para os entendidos nestas coisas que o seu trabalho se concentra nas relações, nos sentimentos, e nos diálogos, com uma moldura que enche a tela e pára no rectângulo que oferece a sala escura, a contrastar com as cores e coisas vivas que vão passando ao nosso olhar. Coisas curiosas. Imprevisíveis. Cada imagem é um quadro a contemplar. Neste filme a câmara parece-me propositadamente mais lenta, para dar tempo.

Não vejo os filmes por causas das mensagens. Imagens sim, diálogos sim. Do cinema bebo a vida, tal como é, e atrai-me, tal como a vida. Nem me interessa se o filme é autobiográfico. O filme tem vida própria. Almodóvar é recorrente nos temas. Mas neste filme o realizador levanta muitos véus.

Banderas, irrepreensível, tal como Penélope Cruz (no filme sua mãe)  fazendo ius ao nome que tem. Comparo a cena do filme Philadelphia (onde Banderas é o companheiro), na qual  Tom Hanks nos dá um homem sob os efeitos da droga pesada, numa sala cheia de cores e barulho, com as cenas deste filme de Almodóvar em que o mesmo em repetidos transes nos é dado em silêncio, e tudo no olhar, quase de olhos fechados, de Banderas. Um olhar que diz tudo.

É então que vamos conhecendo o passado deste realizador, personagem principal do filme, percorrendo as cenas da sua vida desde menino. Penélope, sempre a dar-se com trabalho e inteligência. Autêntica e de um inteireza tão bela quanto ela é bela. E que não se pense que se anula. Basta ver a forma como cose as meias no ovo de madeira, ovo esse que oferece ao filho, numa cena mais para o fim, em que já está velhinha e sabemos que era devota do nosso Santo António.

A sua Dor é a de uma mulher que a ama a vida. A de uma mulher poderosa. Tanto, tanto, que só pode ter a Glória como avesso. Sempre puxando pelas qualidades do menino, que os "curas" queriam educar. Mas o menino grita "não quero ser cura". Aproveito aqui para sublinhar que se noutros filmes noto uma certa subversão em relação a este e a outros temas, neste filme há zero de subversão. Nós já sabemos o que em tempo foram os seminários. E deveríamos saber que uma instituição se deveria medir pelo Bom, e não pelos deuses menores.

E vamos conhecendo que este realizador, um Banderas mais que convincente, terno, e totalmente dentro da representação (que esta já nem o é), é um homem que vive há mais de 30 anos ferido pelas dores insuportáveis de abraços rotos, mas que o Bom Deus irá tomar a peito porque sim e porque o Desejo é grande e mendicante...

Décadas de droga, afastamento e construção de um mundo, a sua casa parece um museu. Mas Banderas não morreu. A Arte irá salvar?

E Almodovar não nos mostra a casa toda. O que ele quer mostrar é o tal invisível aos olhos: o saber mostrar o invisível não é para todos. Não é por acaso que o menino diz, sob o olhar sério da jovem mãe, quando lhe perguntam o que ele quer fazer na vida: "quero aprender", para "ensinar".

 

 

 

 

Tarantino põe-me no sério

09
Set19

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"Once Upon a Time... in Hollywood" (2019), de Quentin Tarantino, sou suspeita: genial! Mostra a realidade nua e crua, ou seja, vestida e bem cozinhada. Nada fica ao acaso, nem a música que é escolhida a dedo, e não está ali para encher, como diria Oliveira.

Entra-me pelos olhos, fico dentro do écrã, melhor, entro em mim...O filme todo, 3h, num segundo que é eternidade. O olho do americano  não tem mensagem (diria também Oliveira, que a arte é do ontológico, e não do moral) nem porquês, nem intervalos. É como na vida, que não pára, não tem cortes (fez-me lembrar a câmara do filme a Arca Russa). O corte é a morte que mesmo assim, ainda Oliveira em Cannes, "est une porte".

Passado, presente e futuro, tudo simultâneo, com portas, horizontes de horizontes, fição e realidade, tudo encaixado.

Pura estética, a realidade entra toda em cada take que vive da beleza. O guião é a realidade.

As distinções são formalismos. Sonho e realidade são servidos na mesma travessa. O prato está cheio de tudo e transborda. Gostaste? É um filme cómico, não é? Não brinquem.

Tarantino põe-me é no sério de nada pôr de lado e de levar tudo em conta.

Seria preciso tanto ketchup? Sim.

E falta o meu elogio da imaginação, da construção encontrada naquela narrativa. O Polanski e a Sharon: um ovo de colombo.

E De Caprio num potencial que é só dele, na cena do filme dentro do filme com  a Marbella, a vivaz menina de oito anos, que com ele também se dá no seu melhor, e que gosta que a tratem por "actor". Ao ver essa cena pensei : esta é uma das melhores cenas da sétima arte. Acto contínuo oiço as mesmas (mesmo) palavras da boca da menina a Leonardo! Um pormenor: esta cena tem um imprevisto, Di Caprio sai fora do guião, a Marbella é atirada ao chão. Vê-se que teve medo. Mas confiou, levantou-se e alegrou-se com a excelência.

Tarantino não é o justiceiro, o que muda a história a seu bel prazer. Ele vê é tudo: o grande, o pequeno, as cores e todos os cheiros, a realidade a encher o coração. A sua Câmara é afinal simples, porque verdade. Ele chama as coisas pelos nomes. Filma pelos nomes. Ao ponto de entre mim e a tela não haver distância.

Por isso digo que este artista me põe no sério. Diante de mim.

Exagero o meu? Eu falo por mim, que não "percebo" de cinema. Tarantino o que é? Um homem cheio de graça! Na sua previsibilidade, a imprevisibilidade em ação. Muito trabalho, muita contemplação.

 

Exortai-vos cada dia uns aos outros,
até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13)

 

 

Factos & tristes figuras

04
Set19

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Temos boca é para falar, é verdade. Agora, tenho ouvido tanta coisa que nem acredito que vivo num mundo assim. Ah, pois é, já me tinha esquecido, chegamos finalmente à  era da inteligência, pelo que se vê artificial. Ou foi muito sol na cabeça. O Algarve, os toldos e as bolas de berlim, com ou sem creme, foram o máximo. Mas não me sai da cabeça o panorama deste rectângulo, que em Outubro vai a votos.  E não me sai também este mindset tão cool, que parece até nem haver  fossos entre as qualidades de vidas. Isto sim,  é quase sufocante. Criminosos, os fossos. E a conversa de elevador segue serena e impávida.

Apenas por alto, e porque também tenho ouvidos, deixo uns números. Sim, porque as pessoas são vistas, a maior parte das vezes, como números, sondáveis, bonecos para as nets. E o que nós gostamos de números!

Há umas centenas de pessoas, que desempenharam uns cargos políticos durante algum tempo, e que por isso estão a receber subvenções vitalícias. Ouvi os nomes, na rádio, e não queria acreditar. Não vou aqui repetir os nomes, mas muitos são os de pessoas que hoje ocupam cargos bem pagos, e acumulam com a dita vitalícia. Também ouvi dois nomes de pessoas que recusaram as ditas.   Tudo figuras públicas.

No "outro" lado do planeta há quem viva em roulotes porque é a única forma de estar perto do liceu onde vai - surprise! - dar aulas este ano. O caso que ouvi é o de um professor de 53 anos acabadinho de saber que vai para Faro, deixando o Liceu de Torres Novas (a mulher e o filho), e que ajuda a pagar as chorudas vitalícias. É a vida! Não, não é.  É sim mas é a política a ter há muito deixado de ser a promoção do bem comum.

E depois são os músculos do outro, são as Catrinas desta vida, os reality(?) shows e os direitos das minorias.

Comum é a corrupção dos que nunca fizeram nada a não ser "roubar" os vulneráveis desta vida. Tristes figuras, porque isto não fica assim. Disso tenho a certeza. Porquê se quase tudo parece indicar o contrário? Porque as vidas não acabam nos cemitérios. Não sendo este post um gesto de justiceiro, é só para lembrar aquele amargo de boca e de coração do regresso da festa. Da tristeza do fim de festa.

Eu prefiro a tristeza que chora com os gestos que, por pequenos que sejam, são uma luz, são vitórias que arrancam do mal o bem. Sou testemunha. E sou  uma grande minoria, feita do mesmo barro de que todos somos feitos. Se calhar até aceitava a vitalícia...

De que Proveito?

 

Exortai-vos cada dia uns aos outros,
até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13)

O grande lobby da Igreja

03
Set19

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Vou no terceiro post seguido sobre a Igreja. Mas Tolentino tem pano para mangas. Por outro lado, tenho visto tanta ignorância nas redes sociais, que não se aguenta. Ignorância ( não digo "ignorantes") em relação ao que é a Igreja. Não devia ser isto causa de tanto espanto, nesta vida tão agitada, e que prescinde da História (dá muito trabalho, deixou de ser prioridade, veja-se o sucesso de Youri Harari...), que já nos habituou ao superficial e ao escândalo. Refiro apenas um exemplo: a expressão "chegar a Papa". Sou insuspeita porque reconheco o valor de José Tolentino. Agora, o que não se admite é que se entenda a Igreja como uma carreira. Na prática muitos são os que nela estarão nessa corrida. É como em tudo o que é humano. E a Igreja é então reduzida a uma trimilenar empresa, ou a uma ONG, apetecivel tanto quanto as riquezas que possui, a influência que tem, o prestígio que dá. Os lobbies abundam, à velocidade dos escândalos que se têm tornado públicos (e hoje nem refiro os também trimilenares episódios em que ficou mal na fotografia). Daí os lobbies para chegar a esta posição, ou àquela, e a Papa.

Não. Não se trata de "chegar a", a lógica da Igreja é outra, devido à sua natureza. Como dizia a minha avó, "estão muito mal enganados!". E lobby só há um.

A Igreja foi fundada por Jesus Cristo, sobre uma "rocha", Pedro, o amigo que o negou várias vezes antes da cantoria do galo. E foi fundada para ser a "luz das gentes". Assim foi e assim será. Com Pedro, e os outros amigos. Feita de barro, portanto, para que o tesouro que a faz diferente de tudo mais, se tornasse inequívoco. E a História está aí para contar. A lógica é a da escolha. Pedro apascenta os meus, diz Jesus.  É o Espírito que escolhe, é Ele o lobby, é Ele que move, numa lógica que nos escapa.

Não são os meus pensamentos, nem os tantos lobbies que abundam nos corredores do Vaticano e jornais, que sopram a verdade. Que lhes faça de Proveito! Eu continuo a entender que a ignorância é pior que o piolho e que umas lições de História fazem muita falta (usem as roulotes para campismo e não para os professores, que já é um começo).

 

Exortai-vos cada dia uns aos outros,
até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13)

 

Será a Igreja uma gaiola?

03
Set19

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Tolentino Mendonça, nomeado ontem Cardeal, foi convidado por Francisco para pregar o retiro de Quaresma da Cúria Romana, em 2018, subordinado ao tema "O Elogio da Sede". "Obrigado por nos ter recordado que a Igreja não é uma gaiola para o Espírito Santo, que o Espírito voa também fora e trabalha", disse o Papa após o retiro, acrescentando: " (...) com as citações e as coisas que o senhor nos disse, fez-nos ver  como [o Espírito Santo] trabalha nos não-crentes, nos ´pagãos´, nas pessoas de outras confissões religiosas." Já muita especulação correu a propósito desta escolha. Basta folhear os media.

As interpretações desta nomeação são múltiplas. Tanta tinta que de nada serve se se entender o que Francisco reconheceu ser o Espírito Santo. Não cabe nas estreitas leituras das cassandras da nossa praça. Isto é o mesmo que dizer que a Igreja tem uma natureza à qual passa ao lado muito do que se diz e opina. A quem interessa o que é a Igreja?

E a Igreja o que é? Quem me diz?

A Igreja interessa à nossa sociedade se o tema são escândalos, sexo e estratégias de poder. Tudo o mais, e que é afinal o que importa, é desinsteressante, não vende.

O sustento da Igreja é, como reconhece Francisco, o Espírito Santo. Que sopra onde quer e como quer. Tudo o mais é folklore e macacadas. O sustento da Igreja está na Misericórdia que precisa de nós para cuidar dos pobres dos mais pobres.

Salvar o homem com o sound beat do Espírito é o que nos pode dar um Bom Proveito!

Do Evangelho que é lido hoje nos quatro cantos do mundo, Jesus diz: " O Espirito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos Pobres; enviou-me a proclamar a liberdade aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos...". Fora de Gaiolas e joguinhos...

 

Exortai-vos cada dia uns aos outros,
até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13)

D.Tolentino no Bosque

02
Set19

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Agora com o novo Cardeal José Tolentino Mendonça, veio à minha memória o Bosque onde um dia o encontrei. No teatro de Luis Miguel Cintra. Façam também um Bom Proveito desta aventura metafísica no Bosque da vida e do "eu"!

«Cornucópia significa bênção, abundância.

É também um teatro que faz 40 anos e acaba de estrear uma peça com base num livro encomendado ao pe. Tolentino Mendonça pela Guimarães capital da cultura. O Estado do Bosque, no domingo, foi seguido de uma conversa com o autor, os atores e o encenador, um deles, Luís Miguel Cintra. Eu, especialista em teatro, poesia, literatura, transcrições narrativas e afins? Não. Escrevo aqui uma experiência estética e o que vejo nesta segunda incursão de Tolentino pelo teatro. "Gosto de me meter", sublinhou na conversa connosco. As palavras e os gestos aqui implicados são uma aposta poética, não fosse o diretor deste teatro um homem que, tal como o seu Manoel de Oliveira, nos põe a liberdade nas mãos e que, de máscaras, só mesmo as do teatro. Só vai ao bosque quem quer. E se vai, vê-se numa grandiosa e simples emboscada. Acabaram-se os teatros. Há trilho para mim? Parece que ele já me encontrou.

O texto é uma explosão poética e atinge meteoricamente quem se põe a jeito. Forjado de palavras que todos entendemos - e passamos a entender melhor - não significa, por isso, que seja brincadeira, à solta, sem o peso do pó. É um direito que tem do avesso, ou no forro, uma densidade metafísica carregada de sabedorias seculares (a começar pelo título), que se dá assim, em câmara clara. A encenação tem a beleza e a magia de nos mergulhar nas perguntas que temos gravadas no coração. "Tem um coração e serás salvo", ouve-se a certa altura. Vi várias vezes e de cadeiras diferentes, e é sempre uma coisa nova. Como eu. Mais: tem a potência de me fazer entrar no bosque da minha vida de uma forma que, sem deixar de ser profana, é uma sagração.

Os silêncios, os vários estares às escuras, a energia das palavras e dos gestos, as caras de espanto naquele limiar entre as cadeiras e tudo, a leveza e seriedade da performance cortam a direito, e encontramo-nos algures em nós, a respirar, rir e chorar a paredes meias. Deixamos de estar no teatro, a assistir. Começa assim: "Qual é o sentido do trilho?" E repete e repete: "Tens medo?"

Esta obra de arte, como as outras, é aberta. Entendo-a como um nada que pode ser tudo. As certezas que tenho como adquiridas são espetacularmente dançadas. De que vale uma resposta se eu não fiz a pergunta? Trata-se então da pergunta pelo sentido da existência, que é o que Luís Miguel Cintra reconheceu estar sempre a fazer no que produz ou re-presenta. Por isso ele acreditou desde o início na pinta deste teatro para o levar a cena. Para Tolentino trata-se de uma produção que escancara a humanidade do humano. Do perguntar, do profano, como ele sublinha. Partimos do que vemos, tocamos - tinha sublinhado há dias à TSF - como poderia ser de outra forma? Sim, não podemos deixar de ser materialistas. Carne.

A história é simples e inteligível, é a minha. Encontro-me nascida e vou à procura do porquê. No teatro vivem: Jacob, Peter Weil, Viviane Mars e o Destino (gravação em repeat de uma infância na Casa Rosa). John Wolf - pleno da imponência de Cintra - vai à frente, é um guia no sentido em que ajuda a perguntar, a despertar para a viagem. Está à porta do bosque. Quem apenas quer a meta não viaja. Mas é cego!? Explica Tolentino: porque ele aprende também. Todos se precisam uns aos outros.

O Estado do Bosque pode levar a uma pergunta capital, que nos pode levar a uma resposta inesperada, um acontecimento. Não tem mensagem (esta, na arte, está sempre a mais). A certa altura diz o cego: basta dizeres SOU. O facto é que eu sou. E daí? Eu aconteço? Sou acontecida? "Andamos aqui a viajar ou a fugir?", grita-se. Pergunta abençoada, até 24 de Fevereiro, em cena. Na minha memória sempre.

 

Não há receitas, etiqueta, ou etiquetas. No final da primeira das sete cenas: sinto que o teatro acabou. Quem se prende às muletas, e ao diz que diz, morre, ou vive de uma má tristeza. A boa tristeza é a da saudade. Wolf sabe que o que falta é esta espera. Repete-o. E que há sinais para uma liberdade. Tens ouvidos? Pés teus? Por isso termina assim: segue.

O teatro acabou. A cornucópia não.

Mestre em Filosofia pela UCP

Exortai-vos cada dia uns aos outros,
até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13)