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Bom Proveito

Bom Proveito

D.Tolentino no Bosque

02
Set19

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Agora com o novo Cardeal José Tolentino Mendonça, veio à minha memória o Bosque onde um dia o encontrei. No teatro de Luis Miguel Cintra. Façam também um Bom Proveito desta aventura metafísica no Bosque da vida e do "eu"!

«Cornucópia significa bênção, abundância.

É também um teatro que faz 40 anos e acaba de estrear uma peça com base num livro encomendado ao pe. Tolentino Mendonça pela Guimarães capital da cultura. O Estado do Bosque, no domingo, foi seguido de uma conversa com o autor, os atores e o encenador, um deles, Luís Miguel Cintra. Eu, especialista em teatro, poesia, literatura, transcrições narrativas e afins? Não. Escrevo aqui uma experiência estética e o que vejo nesta segunda incursão de Tolentino pelo teatro. "Gosto de me meter", sublinhou na conversa connosco. As palavras e os gestos aqui implicados são uma aposta poética, não fosse o diretor deste teatro um homem que, tal como o seu Manoel de Oliveira, nos põe a liberdade nas mãos e que, de máscaras, só mesmo as do teatro. Só vai ao bosque quem quer. E se vai, vê-se numa grandiosa e simples emboscada. Acabaram-se os teatros. Há trilho para mim? Parece que ele já me encontrou.

O texto é uma explosão poética e atinge meteoricamente quem se põe a jeito. Forjado de palavras que todos entendemos - e passamos a entender melhor - não significa, por isso, que seja brincadeira, à solta, sem o peso do pó. É um direito que tem do avesso, ou no forro, uma densidade metafísica carregada de sabedorias seculares (a começar pelo título), que se dá assim, em câmara clara. A encenação tem a beleza e a magia de nos mergulhar nas perguntas que temos gravadas no coração. "Tem um coração e serás salvo", ouve-se a certa altura. Vi várias vezes e de cadeiras diferentes, e é sempre uma coisa nova. Como eu. Mais: tem a potência de me fazer entrar no bosque da minha vida de uma forma que, sem deixar de ser profana, é uma sagração.

Os silêncios, os vários estares às escuras, a energia das palavras e dos gestos, as caras de espanto naquele limiar entre as cadeiras e tudo, a leveza e seriedade da performance cortam a direito, e encontramo-nos algures em nós, a respirar, rir e chorar a paredes meias. Deixamos de estar no teatro, a assistir. Começa assim: "Qual é o sentido do trilho?" E repete e repete: "Tens medo?"

Esta obra de arte, como as outras, é aberta. Entendo-a como um nada que pode ser tudo. As certezas que tenho como adquiridas são espetacularmente dançadas. De que vale uma resposta se eu não fiz a pergunta? Trata-se então da pergunta pelo sentido da existência, que é o que Luís Miguel Cintra reconheceu estar sempre a fazer no que produz ou re-presenta. Por isso ele acreditou desde o início na pinta deste teatro para o levar a cena. Para Tolentino trata-se de uma produção que escancara a humanidade do humano. Do perguntar, do profano, como ele sublinha. Partimos do que vemos, tocamos - tinha sublinhado há dias à TSF - como poderia ser de outra forma? Sim, não podemos deixar de ser materialistas. Carne.

A história é simples e inteligível, é a minha. Encontro-me nascida e vou à procura do porquê. No teatro vivem: Jacob, Peter Weil, Viviane Mars e o Destino (gravação em repeat de uma infância na Casa Rosa). John Wolf - pleno da imponência de Cintra - vai à frente, é um guia no sentido em que ajuda a perguntar, a despertar para a viagem. Está à porta do bosque. Quem apenas quer a meta não viaja. Mas é cego!? Explica Tolentino: porque ele aprende também. Todos se precisam uns aos outros.

O Estado do Bosque pode levar a uma pergunta capital, que nos pode levar a uma resposta inesperada, um acontecimento. Não tem mensagem (esta, na arte, está sempre a mais). A certa altura diz o cego: basta dizeres SOU. O facto é que eu sou. E daí? Eu aconteço? Sou acontecida? "Andamos aqui a viajar ou a fugir?", grita-se. Pergunta abençoada, até 24 de Fevereiro, em cena. Na minha memória sempre.

 

Não há receitas, etiqueta, ou etiquetas. No final da primeira das sete cenas: sinto que o teatro acabou. Quem se prende às muletas, e ao diz que diz, morre, ou vive de uma má tristeza. A boa tristeza é a da saudade. Wolf sabe que o que falta é esta espera. Repete-o. E que há sinais para uma liberdade. Tens ouvidos? Pés teus? Por isso termina assim: segue.

O teatro acabou. A cornucópia não.

Mestre em Filosofia pela UCP

Exortai-vos cada dia uns aos outros,
até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13)