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Bom Proveito

Bom Proveito

Tarantino: deu_ me as pistolas todas!

29
Ago19

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O que fui encontrar! Agora que me preparo para ver o novo filme de Tarantino, eis que já me tinha esquecido que tenho todas as pistolas. Mantenho tudo o que disse então, neste artigo publicado no Jornal Público. E fica prometido um artigo sobre o novo filme.

Para já Bom Proveito com o Django!

«Quentin Tarantino. Não me interessa ler primeiro a crítica. E nem tenho tempo! E não sou especialista em nada. Escrevo quase sempre "à minha vista". Claro que vivo neste mundo, e é sempre, neste caso, a questão da violência do sangue "à grande e à francesa". Mas o que julgo é que este filme é de uma humanidade desarmante, porque com a sua simplicidade me faz, mais uma vez, entrar no meu sangue. Nos sangues. Pouco me importa a intenção de Tarantino. Essa história de que os filmes têm que ter "mensagem" mata os filmes. O cinema é vida, e esta não tem mensagem, é um acontecimento. Olho por olho, dente por dente? Não. O que vi e vejo é que Tarantino tem olho e tem dente para mostrar o que é a vida. E quão ridícula sou ao tender para a demissão de viver em primeira mão. Sangue? Conheço o que corre nas minhas veias e nas daqueles com quem me cruzo - e às vezes ignoro - todos os dias. Há o do talho. O da vida. O dos dedos cortados. O dos hospitais. Realmente só vemos o sangue que queremos. "Tragam-me uma que tenha sido violada!", gritava um jornalista duma influente cadeia televisiva norte-americana para fazer uma reportagem (contou-me um jornalista que estava lá e assistiu a este "fazer" jornalismo). E à noite papa-se no "telejornal". E está-se a par e somos "solidários", à distância. Humanos. Talvez seja o filme mais simples de Tarantino. Na história, na clareza, na beleza da linguagem. Não é um western uma coisa simples? No centro há um amor que ganha, vencendo todos os obstáculos (não é isso que queremos para nós?) e uma justiça como desejo e exigência (também é connosco). Mas tudo acontece na câmara de Tarantino de uma forma impossível, numa linguagem imagética que é só dele, num humor descarado, óbvio, e que me faz rir do sério sem o banalizar. A cena do "final" da irmã de Leonardo DiCaprio é disso exemplo. Não é para distrair. Mas arranca uma brutal gargalhada muito, muito séria. O que concentra ainda mais. Qualquer criança o pode ver. Tarantino é também uma delas. Pode beliscar virgens ofendidas. Mas sabemos que o sangue não é sangue. Que estamos diante de hipérboles. E as crianças percebem isto tão bem. Fartinha de fariseísmos. Em violência clicamos, nós e os nossos, todos os dias e no pasa nada. Eu cá falo por mim. E o pouco que vejo à minha volta é parecido. A "imagem" do filme tem a marca Tarantino: uma imagem forjada. Isto é: o humano (o olhar do Django é qualquer coisa de desarmante, penetrante, molhado, a pingar humano, a pingar-lhe o coração para cima de mim) cosido com imagens "quase" banda desenhada. A parecer kitsch. O olhar de Django é tudo isto e o olho de Tarantino capta genialmente tudo isso naquele segundo. O melhor do Público no email Subscreva gratuitamente as newsletters e receba o melhor da actualidade e os trabalhos mais profundos do Público. Subscrever × Imagens metáfora que nos dão um real de uma cor avivada, hiperbólica, inverosímil, enfim, toda ensanguentada. Mas de um sangue que - para usar a expressão de Chesterton que assim define o que é o "erro" - é, acima de tudo, uma verdade enlouquecida. Tarantino é um "brincalhão" que nos tira do nosso falso "sério" ao criar um mundo autónomo em que o sangue e as pistolas não o são. Com um orçamento mais "espaçoso" faz-me entrar nos nossos sangues e põe-me as pistolas na mão. E já perto do final, e entre a variedade e beleza de músicas da banda sonora, não se esquece, no meio de uma daquelas cenas de tiroteio fatal: "Sometimes I feel like a motherless child." Quem quer quer, quem não quer não quer. Não passa por isso a minha libertação? Passa-me as pistolas. Todas.»

*Mestre em Filosofia pela UCP

Tarantino: onde ponho e olho e o dente? | PÚBLICO

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até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13)