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Bom Proveito

Bom Proveito

Tarantino põe-me no sério

09
Set19

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"Once Upon a Time... in Hollywood" (2019), de Quentin Tarantino, sou suspeita: genial! Mostra a realidade nua e crua, ou seja, vestida e bem cozinhada. Nada fica ao acaso, nem a música que é escolhida a dedo, e não está ali para encher, como diria Oliveira.

Entra-me pelos olhos, fico dentro do écrã, melhor, entro em mim...O filme todo, 3h, num segundo que é eternidade. O olho do americano  não tem mensagem (diria também Oliveira, que a arte é do ontológico, e não do moral) nem porquês, nem intervalos. É como na vida, que não pára, não tem cortes (fez-me lembrar a câmara do filme a Arca Russa). O corte é a morte que mesmo assim, ainda Oliveira em Cannes, "est une porte".

Passado, presente e futuro, tudo simultâneo, com portas, horizontes de horizontes, fição e realidade, tudo encaixado.

Pura estética, a realidade entra toda em cada take que vive da beleza. O guião é a realidade.

As distinções são formalismos. Sonho e realidade são servidos na mesma travessa. O prato está cheio de tudo e transborda. Gostaste? É um filme cómico, não é? Não brinquem.

Tarantino põe-me é no sério de nada pôr de lado e de levar tudo em conta.

Seria preciso tanto ketchup? Sim.

E falta o meu elogio da imaginação, da construção encontrada naquela narrativa. O Polanski e a Sharon: um ovo de colombo.

E De Caprio num potencial que é só dele, na cena do filme dentro do filme com  a Marbella, a vivaz menina de oito anos, que com ele também se dá no seu melhor, e que gosta que a tratem por "actor". Ao ver essa cena pensei : esta é uma das melhores cenas da sétima arte. Acto contínuo oiço as mesmas (mesmo) palavras da boca da menina a Leonardo! Um pormenor: esta cena tem um imprevisto, Di Caprio sai fora do guião, a Marbella é atirada ao chão. Vê-se que teve medo. Mas confiou, levantou-se e alegrou-se com a excelência.

Tarantino não é o justiceiro, o que muda a história a seu bel prazer. Ele vê é tudo: o grande, o pequeno, as cores e todos os cheiros, a realidade a encher o coração. A sua Câmara é afinal simples, porque verdade. Ele chama as coisas pelos nomes. Filma pelos nomes. Ao ponto de entre mim e a tela não haver distância.

Por isso digo que este artista me põe no sério. Diante de mim.

Exagero o meu? Eu falo por mim, que não "percebo" de cinema. Tarantino o que é? Um homem cheio de graça! Na sua previsibilidade, a imprevisibilidade em ação. Muito trabalho, muita contemplação.

 

Exortai-vos cada dia uns aos outros,
até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13)

 

 

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